terça-feira, 8 de maio de 2012



A Fogueira e a Roda de Xangô




                                                            Wilson D´Ògún - Babá Túàlágenã
Durante a primeira fase das celebrações dedicadas a Xangô, isto é, aquelas realizadas junto à fogueira, são entoadas as rezas do "orixá do fogo", um dos títulos atribuídos ao antigo Alafin de Oyó. São inúmeras as rezas dedicadas a este orixá, destacaremos uma no presente trabalho em razão da sua expressividade: Na reza é saudado Aganju, o Alafin de Oyó, filho de Ajàká e sobrinho de Sangô. Yamassè, considerada sua mãe, é quem revela aos mortais, a pedra de raio, símbolo de seu poder, e encontrada ao pé da grande árvore. O brilho do raio e o barulho dos trovões lembram que Aganju vigia do Orum, a terra dos ancestrais, seus súditos e fiéis. O cântico permanecerá por muito tempo, e a cada vez, os vários nomes conhecidos de Xangô serão entoados. Sucedem a Aganju, no texto, Airá, depois Baru e outros doze no total. Um a um são saudados os "reis de Oyó". Após as rezas, também denominadas adura, geralmente é tocado o Alujá, ritmo específico de Xangô, onde o som do bailado do orixá é marcado pelas batidas de palmas e pelo som dos xeres, daqueles que, seguindo-o, executam este ritmo vibrante que marca o final deste primeiro momento do ritual. A "roda de Xangô", no entanto, ocorre no espaço do barracão. Geralmente são executados cerca de vinte cânticos cuja ordem pode variar em função das diferentes tradições que originaram as comunidades. Dentre estes, destacaremos dois, deste repertório belo e expressivo. O ritmo forte e cadenciado do batá louva Dadá ou Ajàká. Os dançarinos, voltados para o poste central, coluna que sustenta a cumeeira e, geralmente, onde se encontra a coroa de Xangô, executam um bailado próprio desta cerimônia, a roda de Xangô. A dança, no entanto, difere das anteriores pelo movimento contínuo da cabeça, que se volta repetidamente para os dois lados do ombro, num sentido inequívoco de negação, e perdura durante todo o cântico. Verger (1987: 32), citando um dos mitos de Dadá, informa que este fundou a cidade de Ixele e era muito rico. Quando se tornou rei de Oyó, trouxe parte de sua riqueza para o seu novo reino, esperando sempre novas provisões de sua antiga cidade. Acrescentando que, "quando Xangô quer possuir um dos seus sacerdotes, as pessoas cantam primeiro: 'Dadá ma sokun mon' - Dadá não chore mais", para que ele não se afligisse, pois novas riquezas chegariam logo. O canto ressalta a tolerância de Ajàká, o obá pacífico, o mecenas, que muitas vezes fingia não ver, "o ar insolente de seu irmão mais velho, Xangô", dado a disputas e turbulências. O texto também solicita ao rei que nos caminhos, quem sabe, da vida, vele pelos desafortunados. A coroa de Baiani, descrita no cântico, da qual é dito ser honrosa e pertencer a um obá, refere-se à Ajàká, terceiro rei de Oyó. A palavra òwò, significando dinheiro, riqueza, está relacionada a uma grande quantidade de búzios que ornam esta coroa e que antigamente serviam como moeda. No texto existe uma ligação de honra com riqueza, através da palavra w . Com referência aos termos: gidigidi, que é um superlativo, isto é, muito; e gìdigìdi, animal grande e forte. Tratam-se de trocadilhos (11) , ou jogo de palavras, recurso muito comum na língua yorubá. Essa associação foi feita quando buscávamos o sentido do canto, pelo sacerdote que nos relatou seu significado, que lembrou também o mito de Xangô com o carneiro: "O Oxe de Sangô, seu machado, pode trazer a forma do chifre do carneiro, pois Xangô um dia brigou com este bicho, que é o que ele mais gosta de comer... o motivo da luta ninguém sabe... O carneiro estava perdendo, foi até em casa e apanhou os chifres... foi aí que a coisa mudou, levando Xangô uma baita surra e, não conseguindo esquecer a humilhação... com um grande estrondo desaparece da terra, virando orixá, porém sempre come o carneiro por gosto e raiva..."

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